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“A Palestina nos livros escolares israelenses” e a importância da discussão curricular para o Brasil.

by em 2 dezembro 2014

nurit

         A Educação no geral, e as práticas curriculares[i] e pedagógicas em particular, envolvem necessariamente escolhas políticas e ideológicas do que será, e o que não será ensinado. Essa regra é válida tanto para um projeto pedagógico que pretenda criar uma sociedade democrática quanto para um projeto autoritário.

Tema ainda pouco abordado e de grande relevância para a compreensão mesmo dos conflitos na região, o ensino na região do Oriente Médio envolve essas questões políticas e ideológicas de maneira incisiva. O vídeo de Nurit Peled-Elhanan[ii] mostra como o projeto pedagógico israelense está relacionando a um projeto político-ideológico racista e expansionista, através da desumanização do povo palestino. Segundo a autora, a forma como são retratados os palestinos para as crianças e jovens de Israel, enquadra-se na típica categorização do discurso racista: 1) primeiramente porque os palestinos nunca são mostrados em situações comuns, ora são mostrados em situações de potencial risco para israelenses, ora como figuras exóticas. Nunca são também mostrados seus rostos, sempre estão com eles cobertos ou escondidos no amontoado de miséria dos campos de refugiados; 2) nos mapas dos livros escolares sequer são apresentadas aos estudantes israelenses as fronteiras do Estado de Israel, neles é representada a chamada “Grande Terra de Israel”, que inclui os territórios palestinos, denotando seu ideário expansionista; 3) Há também uma construção de um ideal militarista no sistema educacional de Israel, com realizações de palestras por combatentes das forças armadas e excursões escolares em acampamentos militares; 4) A História do conflito palestino-israelense também é narrada nos livros didáticos articulada a um princípio de que tudo é válido para manter a “segurança do povo judeu”. Desta maneira, os crimes de guerra e violações de direitos humanos que Israel cometeu contra os palestinos são justificados para os jovens com a narrativa de que aquilo foi necessário para “reestabelecer o moral e segurança do povo judeu”.

A ativista relata como existe na produção e aprovação das materiais pedagógicos israelenses uma intensa censura sobre os conteúdos ensinados. Algumas vezes, essa censura se dá por meio de liberação de verbas e autorizações, outras chega mesmo à queima de livro não-autorizados. Nesse sentido, corrobora com aquilo que se afirma sobre as escolhas político-ideológicas no campo educativo, representarem, em si mesmo, um ato político.

Qual a importância da questão sobre como os palestinos são retratados nos livros didáticos israelenses para o Brasil?

Tanto a maneira como os palestinos são retratados na Educação israelense, quanto o como é (ou não) tratada a matriz cultural africana e indígena no Brasil, referem-se ao modo como se trata o diferente. O tratamento do diferente – como “exótico” ou “terrorista”, no caso dos palestinos, e como “atrasado” ou “folclórico”, no caso da cultura negra e indígena no Brasil – mascara a relação desigual mantida com ele e serve para justificar essas desigualdades. No Brasil, dada a formação histórica do país, uma educação multiculturalista que valorize a contribuição da cultura africana, indígena e europeia na formação cultural, ou melhor multicultural, do Brasil, é condição sine qua non para a construção de uma educação democrática. A mobilização de movimentos sociais, negros e indígenas, conquistaram importantes mudanças na legislação brasileira, sobretudo as leis 10.639/03 e 11.645/08[iii]. Entretanto, é consenso que a aplicação de tais leis tem se mostrado muito tímida[iv], o que mostra o viés racista e eurocêntrico do Currículo na educação brasileira.

Há que se repensar como historicamente tem sido retratado o “outro” na educação brasileira, isto é, a contribuição africana e indígena. Essa questão é mais urgente no Brasil, inclusive, porque a maior parte da população é afrodescendente, portanto, essa imagem distorcida sobre o “outro” é também uma imagem distorcida de si mesmo.

A discussão sobre Currículo é fundamental para os historiadores e professores de História, mas é fundamental para a sociedade brasileira como um todo, visto que escrever a História de um povo é contribuir para a formação de sua auto-imagem. Ainda se estão dando os primeiros passos na construção de uma nova auto-imagem da sociedade brasileira diferente da que foi secularmente construída, onde a matriz indígena e africana eram tidas como secundárias.

Referências:

LIMA, Mônica. Como os Tantãs na Floresta. Reflexões sobre o Ensino de História da África e dos Africanos no Brasil, publicado no Caderno de Textos A cor da Cultura – Saberes e Fazeres. Modos de Ver, 2006, p. 40–48.

SAVIANI, Nereide. Origem do Currículo e a Tradição Escolar Brasileira. IN: Currículo no Ensino Médio: entre o passado e o futuro. 2005

Notas:

[i] Aqui Currículo está sendo entendido como “sequenciação e dosagem de conteúdos da cultura a serem desenvolvidos em situações de ensino-aprendizagem”.

[ii] Nurit Peled-Elhanan é uma militante pacifista israelense, professora de Literatura Comparada da Universidade Hebraica de Jerusalém e uma das fundadoras da associação Bereaved Families for Peace e autora do livro Palestine in Israeli Schoolbooks. O vídeo aqui mencionado pode ser visto no link: https://www.youtube.com/watch?v=GCcV7AtYgwo

[iii] Respectivamente, leis que tornam obrigatórios o ensino na Educação Básica no Brasil o ensino de História e Cultura Africana, e História e Cultura Africana e Indígena.

[iv] Ver reportagem sobre os dez anos da Lei 10.639 em http://www.cartacapital.com.br/blogs/speriferia/dez-anos-da-lei-que-obriga-o-ensino-da-historia-e-cultura-afro-e-afro-brasileira-nas-escolas-e-tema-do-evento-afrobrasilidade-cultura-e-educacao-na-urbanidade-7681.html ; e ver reportagem sobre ação pelo cumprimento da Lei 10.639 por parte das 10 maiores escolas no Rio de Janeiro em http://mamapress.wordpress.com/2014/01/31/escolas-do-rio-vao-ter-de-provar-que-cumprem-lei-de-historia-da-africa-e-cultura-afrobrasileira/ .

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